Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]
"sou muito optimista! Não acredito em nada mas faço como se acreditasse e ajo como se acreditasse" João dos Santos

Ao lerem os meus postais devem pensar que a praia do Furadouro era um lugar idílico. Não era. Para mim tinha o gosto da liberdade. Em Lisboa aos 14-17 anos era casa-liceu-casa. Chegava ao Furadouro e só estava em casa para almoçar, jantar e dormir.
Mas o Furadouro era uma praia piscatória com muita pobreza. As casas eram palheiros miseráveis assentes na areia ou na terra. Homens e mulheres envelheciam precocemente, tinham um ar triste e, no entanto, tinham uma força enorme. A canalha, como na região de Ovar se designa a miudagem, andava muito suja e sempre descalça, a maior parte deles tinha o cabelo cor de palha – não, não eram lourinhos eram sub-nutridos; chegadas as famílias para passar férias era certo e sabido que, na hora de almoço e jantar, lá estavam eles a bater à porta a pedir pão. Lembro-me de um dia em que a minha mãe disse a um dos miúdos:
- Estás muito sujo. Vai tomar banho e volta que levas sopa para casa.
Voltou todo encharcado com o ranho a cair-lhe sobre os lábios e a tiritar de frio.
- O que te aconteceu?
- Fiz o que a senhora me mandou, fui tomar banho ao mar, mas a água estava muito fria só dei um mergulho. Posso levar a sopa?
